Comportamentos desafiantes: quando são sinal e não problema
Antes de corrigir um comportamento, vale a pena compreender a necessidade que ele pode estar a revelar.
Quando uma criança grita, bate, desafia regras ou parece reagir de forma desproporcionada, é natural que os adultos procurem corrigir o comportamento.
No entanto, os comportamentos desafiantes são, muitas vezes, a parte visível de algo que não conseguimos observar diretamente.
Em muitos casos, o comportamento funciona como uma forma de comunicação quando a criança ainda não dispõe de recursos suficientes para o fazer de outra maneira.
Isto não significa que todos os comportamentos devam ser aceites ou que os limites deixem de existir, mas sim que corrigir o comportamento, sem compreender a sua função, raramente resolve o problema na origem.
Esta perspetiva torna-se particularmente importante quando a criança está a viver a separação dos pais.
Mesmo quando a decisão da separação é a mais saudável para a família, continua a representar uma mudança profunda para a criança: alterações nas rotinas, duas casas, diferentes estilos parentais, saudades, incerteza ou exposição ao conflito entre os adultos podem traduzir-se em comportamentos que, à primeira vista, parecem apenas desafiantes.
Uma criança pode tornar-se mais irritável, mais dependente, mais impulsiva ou começar a recusar regras que antes aceitava. Outras regressam temporariamente a comportamentos de fases anteriores do desenvolvimento, como voltar a querer dormir com o adulto, ter dificuldade em controlar esfíncteres ou manifestar maior ansiedade na separação.
Na maioria das situações, estes comportamentos não significam que a criança esteja a “portar-se mal”.
Significam que está a tentar adaptar-se a uma realidade para a qual ainda não possui todas as ferramentas emocionais.
Nos casos em que existe conflito persistente entre os pais, o impacto no ajustamento emocional das crianças tende a ser maior do que o impacto da separação em si. Não é apenas o facto de existirem duas casas que aumenta o sofrimento, mas a exposição continuada à tensão, à imprevisibilidade e aos conflitos entre os adultos.
E para uma mãe em contexto de parentalidade única, esta realidade pode ser particularmente difícil.
É frequente sentir que está a gerir sozinha as consequências emocionais de uma situação que envolve toda a família. Depois de um fim de semana com o outro progenitor, após uma discussão entre os adultos ou perante mudanças constantes nos acordos parentais, é muitas vezes a mãe quem recebe a explosão emocional da criança.
E isso pode gerar um enorme desgaste.
Nestes momentos, é fácil interpretar a birra, a oposição ou a irritabilidade como falta de respeito ou ausência de limites. No entanto, aquilo que a criança mais procura é precisamente o lugar onde sente que pode descarregar as emoções que conseguiu conter durante o resto do tempo.
Isto não significa aceitar todos os comportamentos, mas podem coexistir com uma atitude de curiosidade e compreensão.
É possível dizer: “Não posso deixar que batas”, ao mesmo tempo que se transmite: “Percebo que há algo difícil que estás a sentir.”
As crianças não precisam de adultos perfeitos, mas sim de adultos que consigam ser uma base segura, mesmo quando o resto da sua realidade parece instável.
No Movimento Mães Únicas sabemos que há dias em que o cansaço vence, a paciência diminui e a sensação de estar sozinha pesa mais do que gostaria. Mas uma resposta consistente, empática e previsível, repetida ao longo do tempo, tem um enorme poder reparador os casos em que um comportamento mais desafiante é apenas a forma que a criança encontrou para procurar estabilidade no meio de um contexto desafiante.
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