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O abandono que Portugal ainda se recusa a nomear (e criminalizar)

Quando o abandono aparece numa estrada, todos vêem

Duas crianças pequenas encontradas sozinhas numa estrada em Alcácer do Sal. Perdidas. Vulneráveis. Sem qualquer adulto que as protegesse. Durante dias, o país inteiro falou delas. Os jornais abriram com o caso. As televisões repetiram as imagens. A indignação foi imediata, transversal e quase unânime.

E ainda bem.

Uma sociedade saudável deve horrorizar-se perante o abandono de crianças.

Mas talvez exista uma pergunta mais difícil do que todas as outras — precisamente porque obriga a desmontar uma das maiores hipocrisias morais da nossa cultura familiar e jurídica.

Porque é que o abandono só nos escandaliza quando é visível?

Porque é crime abandonar crianças numa estrada, mas continua socialmente tolerado abandonar filhos dentro da rotina quotidiana da separação, da ausência emocional, do incumprimento parental e da deserção afectiva?

Porque é que um abandono nos parece monstruoso — e o outro apenas “normal”?


O abandono masculino tornou-se tão frequente que deixou de parecer abandono

Há uma verdade profundamente desconfortável que raramente é dita em voz alta:

a sociedade nunca deixou verdadeiramente de normalizar o abandono masculino.

Apenas deixou de lhe chamar abandono.

Chamou-lhe:

  • “divórcio difícil”;

  • “pai ausente”;

  • “nova relação”;

  • “ela dificulta”;

  • “conflito parental”;

  • “ele não sabe lidar”.

Durante séculos, os homens puderam sair — emocionalmente, financeiramente, domesticamente — enquanto as mulheres ficavam encarregues da sobrevivência integral da infância.

E aquilo que hoje chamamos “mãe solo” muitas vezes não nasce de escolha nenhuma.

Nasce de abandono.


Há mulheres a criar filhos sozinhas enquanto os pais continuam vivos

Em Portugal, a esmagadora maioria das famílias monoparentais tem mulheres como cuidadoras exclusivas ou quase exclusivas.

São mulheres que:

  • asseguram alimentação, escola, consultas, roupa, horários e estabilidade;

  • faltam ao trabalho quando os filhos adoecem;

  • reorganizam toda a vida profissional em função da parentalidade;

  • vivem em exaustão financeira permanente;

  • enfrentam processos judiciais longos e violentos;

  • suportam incumprimentos sucessivos de pensões de alimentos;

  • e continuam, ainda assim, socialmente pressionadas a demonstrar equilíbrio, disponibilidade emocional e capacidade infinita de resistência.

Tudo isto enquanto o abandono paterno continua frequentemente tratado como falha secundária — e não como uma forma grave de negligência parental.


A maternidade continua a ser dever absoluto. A paternidade continua demasiado próxima da opção.

Quando uma mãe falha, a condenação social é imediata.

“Como foi capaz?”
“Que mãe abandona os filhos?”
“Monstruosa.”

Mas quando um homem desaparece emocionalmente da vida dos filhos, o discurso muda radicalmente.

“Ele refez a vida.”
“O casamento acabou.”
“Nem todos sabem ser pais.”
“Ela também deve ter culpa.”

A diferença é brutal.

A maternidade continua a ser tratada como obrigação moral total.
A paternidade continua, demasiadas vezes, protegida por uma tolerância histórica que nenhuma criança deveria pagar.


O Direito reconhece o abandono físico. Continua a minimizar o abandono estrutural.

O sistema jurídico sabe identificar abandono quando existe perigo físico imediato.

Mas continua a falhar no reconhecimento pleno de outras formas devastadoras de abandono:

  • ausência afectiva persistente;

  • incumprimento reiterado das responsabilidades parentais;

  • violência económica através da retenção de pensões;

  • instrumentalização dos filhos para punir a mãe;

  • desaparecimento intermitente;

  • negligência emocional continuada.

Tudo isto deixa marcas profundas nas crianças.

E tudo isto continua frequentemente invisível na linguagem pública.

Porque o problema nunca foi apenas jurídico.

O problema é cultural.


Há mães em burnout funcional a sustentar o país inteiro

Existe uma violência silenciosa na vida de muitas mães únicas:
a obrigação de continuar, mesmo quando já não existe quase nada dentro delas para continuar com.

São mulheres que:

  • trabalham exaustas;

  • escondem o medo financeiro dos filhos;

  • colapsam em silêncio;

  • vivem sem rede;

  • suportam violência psicológica pós-separação;

  • e carregam sozinhas responsabilidades que deveriam ser colectivas e parentais.

O mais cruel é que muitas destas mulheres nem sequer se reconhecem como vítimas de abandono estrutural.

Porque foram educadas para acreditar que aguentar tudo é simplesmente o nome da maternidade.

Não é.

Heroísmo forçado não é amor.
Sobrecarga extrema não é vocação.
Exaustão permanente não é destino feminino.


O caso de Alcácer do Sal devia obrigar-nos a discutir muito mais do que um crime

Devia obrigar-nos a discutir:

  • porque continuam tantas crianças a crescer praticamente sem pai;

  • porque continua a existir tamanha tolerância social perante o abandono parental masculino;

  • porque o peso total da infância continua esmagadoramente colocado sobre as mulheres;

  • e porque tantas mães vivem numa combinação permanente de sobrevivência, litigância e exaustão emocional.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja apenas o abandono que aconteceu naquela estrada.

Talvez o verdadeiro escândalo seja a quantidade de abandono que acontece todos os dias sem nunca abrir telejornais.


O abandono não começa na estrada

Começa muito antes.

Começa quando um pai desaparece emocionalmente.
Quando deixa de aparecer.
Quando não paga.
Quando transforma os filhos em instrumento de poder.
Quando abandona a responsabilidade mas continua socialmente absolvido.

E continua quando uma sociedade inteira olha para mulheres em sobrecarga extrema e lhes chama apenas:
“fortes”.

Talvez esteja na altura de chamar as coisas pelo nome certo.