Ser Mãe Única/Sozinha em Portugal: Os Números Que Ninguém Quer Ver

Não é um detalhe biográfico.

Não é uma escolha inofensiva.

Ser mãe sozinha em Portugal continua a ser, em demasiados casos, um exercício diário de resistência silenciosa — contra o sistema, contra o preconceito, contra a precariedade.

As estatísticas confirmam o que já sabíamos no corpo: os números não são neutros. Revelam ausência de política, ausência de apoio, ausência de vergonha social perante a desigualdade normalizada.

Mais de meio milhão de famílias esquecidas

Portugal conta hoje com aproximadamente 506.000 famílias monoparentais, o que representa cerca de 12% do total de agregados domésticos. Em 2001, eram 301.000. O crescimento foi de 68% em apenas duas décadas. A tendência é clara. Mas a resposta política e estrutural continua tímida, fragmentada e, por vezes, ausente.

De acordo com dados do INE, PORDATA, Fundação Francisco Manuel dos Santos e outras fontes oficiais, 130.800 dessas famílias têm filhos menores a cargo. E, entre todas as famílias com crianças com menos de 18 anos, 18,5% são monoparentais.

São elas: 87,3% das famílias monoparentais são compostas por mães

Em cerca de 9 em cada 10 casos, quem assume sozinha a criação dos filhos é uma mulher. A proporção de mães com filhos em contexto monoparental atinge 87,3%, acima da média europeia (83,8%).

Em 2024, são 114.000 mulheres a viver sozinhas com os filhos em Portugal. A esmagadora maioria sem rede, sem apoio suficiente, sem alívio. E, para muitas, sem qualquer reconhecimento.

A Região Autónoma da Madeira e a Área Metropolitana de Lisboa apresentam os maiores índices de monoparentalidade: 23,9% e 22,7% respectivamente.

A pobreza tem rosto: o da mãe exausta

A estatística que mais deveria envergonhar-nos é esta:

31,2% das famílias monoparentais vivem com menos de 591€ mensais, já com apoios sociais incluídos.

Quase um terço destas famílias está debaixo da linha de dignidade mínima. Não é só pobreza. É negligência sistémica.

Segundo dados da PORDATA e da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, a taxa de risco de pobreza infantil em famílias monoparentais foi de 33,9%, contra apenas 12% nas famílias com dois adultos.

Não se trata apenas de desigualdade económica. Trata-se de desigualdade de condições para amar, cuidar e crescer.

Uma realidade estrutural, não uma exceção

As famílias monoparentais e as famílias reconstituídas já representam 27,4% dos agregados familiares em Portugal. Não são marginais. São parte central da nova realidade social.

Mas continuam a ser tratadas como anomalias. Desde as escolas às políticas fiscais, da saúde às férias escolares, quase tudo parece desenhado para um modelo de família que já não é a maioria. E quando o modelo falha, não é a estrutura que se revê — são as mães que se culpam.

Ser mãe única é um trabalho a tempo inteiro. Não pago. Não reconhecido.

Há dados. Há evidência. Há silêncio.

Quem cuida das cuidadoras? Quem dá tempo a quem nunca tem tempo? Quem ouve quem se deita todos os dias a pensar se vai conseguir pagar tudo?

O Movimento MÃES ÚNICAS não existe para tapar buracos. Existe para transformar o chão que pisa quem cuida sozinha. Porque isto não é só estatística. É o país que temos. E é o país que temos de mudar.


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